Sobre o acervo

Este acervo foi se formando para auxílio da memória viva de dois professores para ter conhecimento da diversidade de culturas vivas brasileiras. Não só quando jovens mas ao longo de muitas décadas, era preciso buscar por pessoas, os artistas populares, suas fontes principais de estudo, em festas de cidade e em dias festivos em comunidades. À medida que se ampliaram a experiência, a reflexão, os estudos e os registros foi se tendo a noção da importância do acervo e da necessidade de ter a preservação dos registros que foram se tornando também testemunhos de vivência e elementos de nossas memórias profundas, com percepções do tempo que se ressignificam no presente quando revisitados.

O que é o acervo?

O acervo consiste em vasta documentação de fontes orais da cultura tradicional que conhecemos de perto, diretamente, especialmente dedicada às formas de expressão afrodescendentes e à poética tradicional em diferentes lugares de diferentes municípios, estados e regiões. A história de vida de muitos artistas populares que conhecemos traz junto a história das migrações dentro de uma região e entre regiões do país.

Os registros mais antigos sonoros e fotográficos, feitos entre 1972 e 2003, são analógicos e estão acompanhados de anotações em cadernetas de campo, primeiras reflexões analíticas como relatos em que se descreve o que se viu, ouviu observou, descreveu e as primeiras transcrições. Um material sujeito à deterioração por mofo ou apagamento dos filmes e slides e pela perda de qualidade das fitas cassete em que se alteravam os sons e ressecavam ou mofavam as fitas.

Em 2022, nós (Maria Ignez Novais Ayala e Marcos Ayala) completamos cinquenta anos de pesquisa, estudos e preservação contínua do acervo que foi se formando ao longo do tempo.  Após 2020, no período de reclusão devido à epidemia de covid-19, paramos de fazer pesquisas de campo e nos dedicamos ao estudo do que existe no acervo, especialmente à parte mais antiga de registros sonoros e fotográficos, que contêm os corpos em dança e devoção, as vozes faladas e cantadas dos mestres e participantes, que se tornaram referências culturais para as novas gerações que muitas vezes não dispõem sequer de imagens de pais e avós e menos ainda de registros sonoros ou em vídeo.

O que pretendemos fazer agora?

O site Acervo Ayala, agora em nova versão tem por objetivo expor aos poucos estas memórias dos pesquisadores e criar diálogos com as novas gerações, os herdeiros desta tradição.

As formas de expressão que conhecemos

Poesia oral (cantada e declamada), narrativa, canto e dança tradicionais brasileiros, gravados principalmente nas comunidades em que viviam os artistas populares. Na maioria dos casos, se trata de registros únicos, pois, não havia mais ninguém portando gravadores, máquinas fotográficas ou filmadoras nos eventos registrados, principalmente em festas comunitárias, nas quais éramos os únicos pesquisadores presentes. Além disso, são os únicos registros existentes de muitos mestres, vários deles já falecidos.

Ao todo, são cerca de 500 horas gravadas em fitas cassete, centenas de fotografias, mais de 300 horas de registros audiovisuais. Esses registros mais antigos (de 1972 a 2003) foram feitos com equipamento analógico, em diferentes suportes, hoje obsoletos, o que tem exigido cuidados urgentes para salvaguardá-los.

Por que preservar?

Antes de tudo porque os documentos  que geramos através de pesquisa de campo análises e eventuais publicações têm revelado um significativo testemunho de época, trazendo vozes e imagens de um passado cultural pouco conhecido. Através da documentação fotográfica, sonora e audiovisual é possível ampliarmos reflexões sobre o que é a vivência de pesquisa e a pesquisa vivenciada. Também é possível provocar reflexões de herdeiros destas tradições de base oral, que podem conhecer sobre outro ângulo seus antepassados e o lugar que ocupam na história destas tradições.

Para a recuperação de informações sobre os registros consultamos  anotações em cadernetas e comentários feitos durante o processo de pesquisa que se conservaram inéditos e, apesar do tempo passado, dão vida aos registros.

Para preservar registros etnográficos não basta a digitalização, são necessárias etapas de identificação e descrição dos documentos deste Acervo. É um trabalho demorado e criterioso do qual é fundamental a presença e trabalho dos pesquisadores na descrição da documentação fotográfica, sonora e audiovisual Neles registros de época estão contidos sentidos, sentimentos, toda uma cadeia de emoções e situações, que são fixadas nas anotações de campo e em reflexões posteriores dos pesquisadores; permitem não só a apreensão de uma maneira de ver e de pensar a cultura tradicional, mas também a reconstrução e veiculação da memória do Patrimônio Imaterial Brasileiro vivenciado e salvaguardado do esquecimento.

O que esse acervo contém?

O empenho em preservar este acervo etnográfico se deve a vários motivos. O primeiro tempo de pesquisa de campo em São Paulo e Nordeste, abriga registros de práticas comunitárias, reconstruídas por migrantes negros, nordestinos e mineiros em diferentes lugares do estado de São Paulo onde fixaram residência.

Há uma grande diversidade de formas de expressão presentes em Festas do Divino, Festas de São Benedito, Festas de Santa Cruz, Festas do Rosário. Há muitos registros de Modas de viola, Danças de São Gonçalo, Samba-lenço, Batuque ou Tambu (Samba de umbigada), Congadas, Moçambiques, Benzimentos, Narrativas.

Dentre os migrantes paraibanos, muitos se destacam, entre eles, Azulão, cantador de folhetos nascido em 8 de janeiro de 1932 em Sapé (PB), residindo no Rio de Janeiro, desde os anos 1940 até 12 de abril de 2016, quando faleceu. Sebastião Marinho, poeta repentista e cantador, nascido na região de Guarabira, fixou residência em São Paulo desde os anos 1960/1970, onde faleceu em 10 de fevereiro de 2024. Os dois, falecidos, são referências culturais do repente nordestino no sudeste do país.

O segundo tempo de pesquisa de campo se desenvolve principalmente na Paraíba, onde os pesquisadores fixaram sua residência desde 1978.

Esta documentação etnográfica composta por registros sonoros, fotográficos, audiovisuais e anotações em cadernetas de campo permite reconhecer referências culturais do Patrimônio Imaterial da Paraíba, dentro e fora do estado. No Nordeste foram gravadas diferentes formas de expressão de Poesia Oral (Repentes, Emboladas, poemas narrativos impressos em folhetos e poemas curtos, cantados ou declamados), Cocos, Cirandas, Danças Dramáticas (Guerreiro, Chegança, Barca ou Nau Catarineta, Cavalo Marinho, Pastoril, Lapinha, grupos de Carnaval – Tribos, Clubes de orquestra de frevo, Ursos, entre outros), entrevistas com diferentes mestres e participantes, além de algumas entrevistas e conferências de estudiosos da cultura popular tradicional, gravadas durante encontros científicos.

Dentre os residentes na Paraíba, registrado desde 1978 consta Zequinha, mestre do Cavalo Marinho de Bayeux, falecido aos 64 anos em 2012. Nas fotos deste acervo e nos registros sonoros ele aparece bem novo, participando como um dos principais componentes de seu grupo.

Do universo do Repente, o acervo tem exemplos de cantadores de diferentes gerações: dos irmãos Lourival, Dimas e Otacílio Batista, Severino Pinto, Manuel Xudu, Diniz Vitorino, João Furiba aos mais novos. Os pesquisadores assistiram várias cantorias no brejo e no sertão, acompanhando Daudeth Bandeira, neto de Manuel Galdino Bandeira, um dos repentistas registrados pela Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938; Severino Feitosa, repentista e organizador de cantorias e festivais; Fenelon Dantas, repentista e compositor de poemas e canções de vaquejada gravadas por vários cantadores, falecido em 20 de setembro de 2024. Estes cantadores, junto com Ivanildo Vilanova, Geraldo Amâncio e outros, são representantes da geração que lutou por um reconhecimento como artista, ganhando novos espaços de atuação, além de trazer fortes mudanças na temática da cantoria e nos cânones da criação estética. Há vários registros com mulheres repentistas desde 1979. Desta época são os primeiros registros sonoros de Maria da Soledade, paraibana, e de Santinha Maurício, pernambucana, quando esta residia em São Paulo. Este acervo tem o registro de todos os congressos de mulheres repentistas ocorridos em Alagoa Grande e João Pessoa e de várias entrevistas em que expressam sua luta para serem reconhecidas.

Este site traz um terceiro tempo centrado nas pesquisas coletivas realizadas com apoio de várias instituições de fomento entre 1992 e 2022, desenvolvidas com equipes do Laboratório de Estudos da Oralidade que abrigou as pesquisas coordenadas por Maria Ignez Novais Ayala e as coordenadas por Marcos Ayala. O LEO existiu de 1994 a 2024 e teve muitos resultados em forma de livros, CDs, livro-CD e e-book centrados em referências culturais, como o cantador de Coco de Santa Luzia, no sertão paraibano e a poeta repentista e escritora de cordéis Maria da Soledade Leite, uma das pioneiras do repente de viola e organizadora dos festivais de Mulheres repentistas.

Também traz produções recentes de Maria Ignez N. Ayala e de Marcos Ayala.

Como usar o acervo

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